Experimentar e vivenciar no corpo os estímulos da urbanidade são modos de operação para os artistas que atravessam o espaço urbano por meio da dança de rua. Corpos que se contorcem, se entrelaçam, se confundem com a movimentação do trânsito e que, transitoriamente e em velocidade feroz, buscam formas de se comunicar pelos movimentos inerentes aos grandes centros urbanos, sensibilizam e criam novos espaços de percepção da realidade para quem observa a potência da matéria em deslocamento.

Surge então, a reflexão, em quem vê, da necessidade de estar no mundo e de se conectar com a realidade das cidades, de ter a rua como metáfora da própria existência e a precisão dessas conexões presentes no movimento, interessam, surpreendem, apavoram. Movimentos, às vezes, até mesmo arquetípicos, mas que trazem, em si, memórias de tempos que já se passaram, ancestrais talvez, ou que simplesmente não existiram na configuração de hoje. As sensações, alinhadas às problemáticas urbanas, como a violência, a velocidade de informações, as superficiais conexões humanas, as linhas invisíveis que nos atravessam e nos transformam, as conexões de wi-fi que ultrapassam até mesmo a corporeidade para dialogar em outros corpos e espíritos: tudo isso é dança, é a arte de rua que se permite existir. 

Ao participar do maior evento/ocupação já existente em toda a América Latina sobre dança de rua, chamado “Desmistifique sua dança”, realizado pelos artistas e pesquisadores Marila Velloso (Ctba) e Hugo Oliveira (RJ) eu tive a oportunidade de refletir o quão complexas são as relações entre o corpo e a urbanidade e quão limitados somos ao pensar a dança de rua. O evento, que primeiramente foi realizado no Rio de Janeiro com a presença de artistas cariocas, curitibanos, franceses e norte-americanos se desdobrou para outras cidades e continentes, criando uma ampliação de possibilidade profissional na vida de todos que, direta ou indiretamente, vivenciaram diferenciadas técnicas desse estilo artístico.

Nesse contexto, foi impactante pensar em como as realidades pessoais, do dia a dia, daqueles bailarinos de nacionalidades diferentes, de vivências diferentes, mas com tantos objetivos em comum, são fundamentais para a dança de rua. E eu diria até mais: não existe como separar a arte da vida, conceito perceptivelmente sentido na movimentação de quem tem o espaço público como sua morada. 

Os participantes do Rio de Janeiro, os “Imperadores da Dança”, que são moradores da comunidade de Manguinhos e conhecidos pelo famoso “passinho” (que recentemente tiveram visibilidade nacional ao participarem de um quadro famoso no Domingão do Faustão”) nos trouxeram, nos saltos, na agilidade, na precisão dos movimentos de vigília, por exemplo, as corridas e assombros que os fazem saltar alto e rapidamente durante a correria dos tiroteios vividos diariamente por eles na comunidade. Os norte-americanos do Brooklin, Klassic e Soho, com a técnica do Flexn, mostraram a sinuosidade e ousadia de quem dança ilegalmente nos metros nova-iorquinos como forma de resistência à censura. Os bailarinos curitibanos, Jorge Samuel e Vitor da Rosa, com suas inquietantes e profundas questões sobre a negritude, o incrível bboy Marquinhoz, Pedro Almeida, entre outros bailarinos, cada um com suas vivências, objetivos e, principalmente, com a ânsia da revolução por meio da dança de rua, mesmo que por alguns instantes, nos mostraram como incrivelmente é possível que a arte seja uma forma transformadora da realidade, esteja ela presente em espaços públicos grandes, médios ou pequenos;  nos centos ou nas periferias; em frente ao shopping Itália, no saguão do MON ou dentro de um teatro. O que não pode se perder (e duvido que algum dia se perca) é essa potência de quem dança metaforicamente preso a uma granada, porém segurando carinhosamente um coração nas mãos.

O Desmistifique sua Dança continua em desdobramento. Atualmente a equipe está em processo de edição do documentário sobre o evento realizado no Rio de Janeiro. A estreia é em dezembro e você não pode perder! Em breve, teremos mais informações por aqui 😉

Ana Reimann

Ana Reimann

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