A experiência sensorial aliada às novas formas de linguagem cênica tem sido experimentada por grupos contemporâneos de teatro em todo o país. A preocupação com a estética, com a concepção dramatúrgica e com o processo criativo para o encontro de inovadoras formas de comunicação com a plateia permeiam as conversas, os encontros e os ensaios dos artistas de hoje que, cada vez mais, de forma individual ou coletiva, atravessam um momento de resistência ao propor reflexão e ação frente aos desafios da sociedade atual. 

Em tempos em que a cultura atravessa tempos difíceis tanto em relação à falta de incentivo, à restrição de recursos e, terrivelmente, de flerte com a censura, encontrar modos de fazer a manifestação artística acontecer tem sido um ato de bravura em todo o país.

Em Curitiba, a investigação da linguagem teatral contemporânea tem se alinhado às inquietações pessoais e conjuntas de intérpretes, diretores, pesquisadores, ativistas e estudiosos. A ideia de pensar não apenas o Brasil, mas também os processos democráticos nos países latino-americanos e seus desmontes estão em ascensão. E aparecem na cena.  A arte surge fortemente como uma maneira de tratar metaforicamente (ou não) a insatisfação do ser humano com a violência, a opressão, a fome, ao descontrole sócio-político que afeta, sobretudo, quem se difere da “normalidade”. É um movimento ainda tímido mas que já marcha ao encontro de novas possibilidades, ainda que não tão palpáveis quanto desejaríamos, de uma transformação potente por meio da arte.

Pensando em formas de ampliar essas reflexões e levar ao público curitibano o conceito da “desmontagem”, estilo de fazer teatro em que questões envolvidas durante processos de criação são compartilhadas com a plateia, o Grupo Obragem de Teatro, em parceria com a professora Dra. em Artes Cênicas Stela Fischer, abraçou, no final de agosto, um encontro com a artista e pesquisadora Tânia Farias (do reconhecido Grupo Ói Nóis Aqui Traveiz). O evento promoveu um bate papo e uma oficina com a atriz, além da apresentação da desmontagem intitulada “Evocando os mortos – Poética da experiência”. A peça trouxe uma experiência inédita à cidade ao apresentar, sobretudo à artistas e estudantes curitibanos, personagens emblemáticos da dramaturgia contemporânea trabalhados pelo grupo e ao contar, como feito em uma grande aula aberta, os caminhos para a construção individual desses personagens. Vale destacar o olhar preciso para as discussões de gênero e de violência contra a mulher em suas variantes levantadas durante os três dias de encontro. 

Tão importante quanto a proposta de linguagem da peça, foram igualmente importantes a integração e a reflexão sobre o fazer artístico representados por esse evento na contemporaneidade.  Afinal, quais seriam as melhores formas de comunicação por meio da arte nos tempos atuais? Tempo das tecnologias, da propagação do desapego, da individualidade, tempos em que a intolerância e a violência ganham novas forças e formas? Como dialogar com essa realidade agindo como uma potência transformadora?  Seria por meio da sensibilidade estética? Na forma como o artista está presente e se posiciona em cena? Individualmente? Como grupo? O teatro encontra-se em um momento de revolução, de novas ideias, de busca por novos formatos, novas linguagens e reconstruções. Já não cabe a ele, por exemplo, os personagens construídos na década de 80, nem os desconstruídos em meados de 90. Tornou-se necessária uma nova forma de estar presente em cena, uma presença inteira, esteticamente e dramaturgicamente alinhadas para sensibilizar em narrativas originais. O teatro está em PROCESSO

Em processo também estamos nós, jornalistas culturais. Também nos cabe a responsabilidade de estarmos juntos nessas reflexões e conexões, encontrar novas formas de propor inquietações ao nosso púbico ao falar sobre arte, abrir espaços alternativos, pensar, refletir, ir além dos gostos pessoais ao fazer nossas escolhas de pauta, estarmos presentes. Precisamos ser resistência para conseguir expandir a divulgação da arte e da cultura, acreditando em suas vísceras como transformadoras do mundo. 

Ana Reimann

Ana Reimann

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