Até quarta-feira 25 de março de 2020 havia sido registrado no Brasil um total de 57 mortes e 2.433 casos confirmados de covid-19, a terrível pandemia espalhada pelo mundo pelo novo coronavírus, importado da ditadura comunista da China, que virou o mais disputado mercado do mundo. Os números são modestos. Na vida real as estatísticas são maiores.

No mesmo dia, o presidente Jair Bolsonaro reuniu-se com os governadores do Sudeste para discutirem estratégias comuns contra o microrganismo mortal.

A repercussão do pronunciamento do chefe do governo federal em cadeia de rádio e televisão na noite anterior tinha sido tão catastrófica que o isolamento “horizontal”, que ele havia execrado na ocasião, tornou-se “vertical”, ou seja, exclusivo para idosos com doenças. O que era terrível e assustador ficou patético, sendo polido.

No debate entre chefes de Executivos por via virtual, o governador do Estado de São Paulo, João Doria, disse que o presidente deveria:

Dar exemplo ao País, e não dividir a nação em tempos de pandemia.

Tinha razão. O presidente retrucou:

Se você não atrapalhar, o Brasil vai decolar e conseguir sair da crise

Não foi o único governador presente a manifestar sua reprovação. Todos estavam certos. E daí? Ninguém ganhou, ninguém empatou. No fim todos perderão.

O pronunciamento foi o mais desastroso de um presidente desde sempre. Tomei nota dos sete pecados capitais do chefe do governo.

1. Vigarice: O presidente pediu ao Congresso um decreto de “calamidade pública” para gastar o que quiser com combate à pandemia e agora chama o isolamento social de histeria. Fê-lo porque não sabe o que quer dizer calamidade ou por confundir histeria com pizzaria?

2. Ignorância: Sua Insolência disse que o Brasil é completamente diferente da Itália, mas se esqueceu de falar das semelhanças entre China, Espanha, Itália e Estados Unidos, agora no epicentro da pandemia, em especial Nova York, conforme declarou a Organização Mundial da Saúde. Será que o capitão se esqueceu da própria origem italiana?

3. Egocentrismo: Em vez de lamentar cada um dos mortos, seja lá quantos forem, e confortar infectados, cujo total aumentará exponencialmente, disse que, atleta, enfrentará a pandemia como ela é: uma “gripezinha”. Faltam-lhe senso, sensibilidade e consciência cidadã de que todos são iguais perante a lei.

Que religião professa o dito cristão, na qual idosos com saúde precária teriam por isso menos direito à vida do que jovens hígidos? Aliás, saiba ele, ninguém escapa da morte. Aos 65 anos, deveria saber que atletas mais preparados do que ele morreram – Ademar Ferreira da Silva, por exemplo – e outros inevitavelmente morrerão.

4. Falta de educação – O pronunciamento foi fértil em ataques a governadores, imprensa, profissionais da saúde – corretamente tratados como heróis pelo povo que o elegeu presidente – e outros adversários, considerados vis inimigos.

Em teoria, pronunciamentos do gênero deveriam ser ocasião para o chefe de Estado contar eventuais ações do governo. E não tribunas livres para guerrilha política pré-eleitoral sujíssima. Mamãe não ensinou direito civilidade ou ele nem ligou?

5. Exercício ilegal da medicina – O capitão reformado receitou a droga coloroquina, para tratar malária e lúpus, contra recomendação médica.

O repórter Edilson Martins (ex-Pasquim), companheiro de visitas dos irmãos sertanistas Villas-Bôas em visitas a tribos indígenas, convive com a febre maldita transmitida pela carapanã, abundante em sua Amazônia de origem.

Pelo WhatsApp avisou aos incautos clientes do Dr. Jair que a substância destrói o fígado e leva homens à impotência.

6. Nepotismo – Reportagem do Estado de S. Paulo, assinada por Vera Rosa, competente repórter responsável há muitos anos pela cobertura do Planalto e publicada no dia seguinte, dá conta de que o presidente:

Se isolou ainda mais na crise do coronavírus. Desde que a calamidade pública começou a assombrar o dia a dia da população, Bolsonaro deu mais poder ao ‘gabinete do ódio’, núcleo ideológico que o incentiva a adotar um estilo cada vez mais beligerante … e desautorizou o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta

Seu diabinho de plantão é o filho 02, Carlos, vereador no Rio de Janeiro e encrenqueiro por vocação.

7. Irresponsabilidade e falsidade – A informação acima é confirmada pela citação no pronunciamento do tal “medicozinho da Globo”, que não teve o nome declinado, mas é o infectologista Dráuzio Varella.

Este que conseguiu que a Justiça proibisse a circulação de um vídeo em que despreza a hoje pandemia. Compartilhado por Carlos e pelo ministro da Devastação do Ambiente, Ricardo Salles. O vídeo foi gravado há dois meses e fazê-lo incorre em ilícito que o presidente atribui frequentemente a seus desafetos da dita “extrema imprensa”: fake news.

Dizem que sua desastrada decisão foi provocada por despacho do ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello acolhendo parcialmente recurso do Partido Democrático Trabalhista (PDT) contra sua tentativa de barrar iniciativas de isolamento social decretada pelos governadores de São Paulo, João Doria, e do Rio, Wilson Witzel, pretendentes ao trono que ele ora ocupa em 2022.

No dia em que o Japão adiou a Olimpíada para 2021 por causa da covid-19 e o premiê indiano, Narendra Modi, que ele visitou recentemente, decretou quarentena para 1 bilhão e 300 milhões de compatriotas.

Bolsonaro e Doria anteciparam a guerra eleitoral sem dar a mínima para o aviso do médico urologista Miguel Srougi, professor da USP, que prevê mortes de pacientes nas filas nas portas dos hospitais públicos. A disputa está marcada para 2022. E pelo visto nenhum dos dois terá algo de bom para contar aos eleitores que elegerão o próximo presidente.

*Jornalista, poeta e escritor

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José Nêumanne Pinto

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