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A ascensão e a queda de Wilson Simonal

Filme biográfico Simonal conta a fantástica história de construção e derrocada da carreira do maior ídolo da música brasileira nos anos 1960

Abonico
Abonico Smith / Jornalista e professor especializado em arte, cultura e entretenimento
A ascensão e a queda de Wilson Simonal
Wilson Simonal (Fabricio Boliveira) em cena da cinebiografia Simonal

3 de setembro de 2019 - 00:00 - Atualizado em 3 de setembro de 2019 - 00:00

Cotação: ★★★★

Não é só no cinema internacional que o gênero das biografias voltadas ao mundo musical estão em alta não. Apesar das bilheterias ficarem bem aquém de iniciativas megapopulares em todo o planeta, como as recentes que focam nas carreiras de Elton John e do Queen, as produções nacionais também vêm conquistando um espacinho nas salas de projeção e abocanhando boas críticas e a receptividade de uma plateia disposta a conhecer (ou reviver) causos e acontecimentos que marcaram a vida e a carreira de astros do rádio e da tevê brasileira. Erasmo Carlos ganhou as telas no início do ano. Agora é a vez de Wilson Simonal.

Cantor de ascendência profissional vertiginosa em meados dos anos 1960, Simonal foi o principal nome da música popular brasileira no final daquela década. Lotava arenas quando plateias gigantescas ainda não eram uma coisa muito comum no showbiz. Comandava e hipnotizava o público como ninguém – a ponto de manter as pessoas cantando no estúdio de televisão, sair do palco, deixar a sede da emissora por uns instantes, ir bater papo no bar vizinho e voltar à cena sem o coro em uníssono parar por um instante. Sua malemolência era a marca registrada e não havia como não se deixar apaixonar por ela. Contudo, o sonho de conto de fadas do rapaz carioca de infância pobre e vida particular pré-fama bem sofrida desabou rapidamente como um castelo de cartas, sob a acusação – e uma perseguição ferrenha da imprensa nacional, diga-se de passagem – de colaboração com o regime que governava com mão de ferro o Brasil daquela época. De ícone passou a pária. Pesava sob seus ombros o fantasma de supostamente agir contra o meio artístico e ser um espião infiltrado da ditadura militar, sempre pronto para delatar algum colega rumo à prisão ou o exílio.

De 2000 para cá, reportagens, livros biográficos e documentários vem colocando todos os pingos nos is e provando que, apesar de erros e falhas de sua natureza humana que provocaram todas as polêmicas e os mal entendidos, dedo-duro e homem da ditadura Wilson Simonal de Castro nunca foi. Agora, a cinebiografia Simonal chega para engrossar a lista de iniciativas dispostas a desnudar o que de fato aconteceu nos bastidores para marcar a história de ascensão e queda mais fantástica do entretenimento brasileiro durante o Século 20.

Comandado por Leandro Domingues faz sua estreia em direção de longas após extensa carreira apostando em curtas e na carreira de montador de documentários), é justamente sobre este período de quinze anos (de 1960 a 1975) que repousa o foco da história mostrada. Interpretado por Fabricio Boliveira (que, apesar de não ter semelhança física com seu personagem, consegue impressionar ao incorporar toda a ginga e os trejeitos dele em ação), Wilson Simonal vai do construtor da pilantragem ao pilantra-mor completamente ensimesmado, que acha que tudo deve girar ao seu redor enquanto curte os prazeres da música e do estrelato. A experiência de Domingues em docsgarante uma edição ágil e competente, sem se furtar, com competência e brilho gráfico, a utilizar recortes de jornais e revistas da época para fazer elipses temporais ou mesmo recorrer a imagens de arquivo em vídeo do próprio Simona cantando no Maracanãzinho lotado, fazendo dueto com a cultuada jazzista americana Sarah Vaughan, assinando contratos milionários (com a empresa de combustível Shell, um dos nomes corporativos que apostavam em patrocínios e comerciais de TV com os principais astros da música brasileira no final dos anos 1960) ou dando um choque de realidade no Brasil superpreconceituoso ao louvar a negritude e o líder negro Martin Luther King em transmissão feita em rede nacional. Outro detalhe importante são duas grandes cenas realizadas em longo tempo de plano sequência – a primeira vem logo assim que o filme começa. Um diretor com o timing de montador é fundamental para a beleza estética de opções de narrativas visuais como essa.

Nem precisa dizer que musicalmente o filme é um delírio para quem gosta de boa música. Cantadas pelo próprio Simonal (Fabrício apenas dubla nestas horas), elas aparecem a todo instante. “Nem Vem Que Não Tem”, “Mamãe Passou Açúcar em Mim”, “Sá Marina”, “Meu Limão, Meu Limoeiro” (o cantor tornou-se famoso por fazer seu público cantar por longo período de tempo clássicos do cancioneiro infantil), “País Tropical” (partiu dele a ideia mirabolante de subtrair o final de cada palavra da canção hipnotizante composta pelo amigo Jorge Ben) e “Tributo a Martin Luther King” são algumas das presenças na tela. Um dos grandes destaques na parte musical é justamente o início da fama de Simonal, quando ele deixa para trás o grupo de amigos com quem forma o grupo vocal de doo-wop Dry Boys, para, impulsionado por Calos Imperial (feito por um Leandro Hassum calibrado no humor e na afinação), abraçar uma carreira solo que não tardou a decolar e fazer a criatura deixar para trás o seu criador. Enquanto isso, personagens importantes da música brasileira aparecem aqui e ali em momentos-chave da vida pessoal do protagonista: Miele, Ronaldo Boscoli, Cesar Camargo Mariano, Elis Regina, Erasmo Carlos e Jorge Ben.

Claro que nem tudo é música nesta cinebio de Wilson Simonal. Boa parte do roteiro assinado por Victor Atherino enfoca a relação com Tereza Pugliesi, moça tijucana com quem viria a namorar, casar-se e ter seus dois filhos Wilson Simoninha e Max de Castro (ambos, aliás, assinando a produção musical deste filme). Fabrício contracena dos Isis Valverde mostrando uma excelente química – afinal, os dois já fizeram outro par romântico como João de Santo Cristo e Maria Lúcia na adaptação cinematográfica da música de Renato Russo Faroeste Caboclo – em momentos de paixão, amor e conflitos que incluem a tradicional quebra de violão durante uma crise de ciúmes. O único ponto negativo com relação à interpretação é o indisfarçável sotaque que teima em escorregar durante diversos momentos de intensidade, tensão ou explosão do ator soteroplitando em cena. Simonal pode ter sido muita coisa. Entretanto, além de dedo-duro da ditadura militar, baiano ele nunca foi.

Muita gente pode acusar Simonal, o filme, de ser superficial ao deixar de lado outros aspectos importantes que construíram a vida e a trajetória pessoal do cantor – como as questões familiares com o pai ou ainda os anos finais de dureza profissional e emocional, com a carreira completamente destruída pelas falsas acusações. Mas é impossível condensar um personagem tão múltiplo e fascinante como Wilson Simonal em apenas quase duas horas de história. Para isso seria necessário fazer uma série, o que também não deixa de ser uma boa ideia para o futuro. Afinal, Simona vale a pena. Como homem e sobretudo como mito da música popular brasileira.

Simonal (Brasil, 2019). Direção: Leonardo Domingues. Roteiro: Victor Atherino. Com Fabricio Boliveira, Isis Valverde, Leandro Hassum, Caco Ciocler, Mariana Lima, Bruce Gomlevsky, Leticia Isnard, Dani Ornellas, Silvio Guindane, Fabricio Santiago, João Velho, João Viana. 105 minutos. Downtown Filmes. Estreia nos cinemas brasileiros: 8 de agosto de 2019.