Agronegócio

ENFOQUE- Plantio acelerado de soja do Brasil pressiona prêmios, acirrará competição com EUA

Reuters
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ENFOQUE- Plantio acelerado de soja do Brasil pressiona prêmios, acirrará competição com EUA
Colheita de soja perto da cidade de Campos Lindos (TO)

11 de novembro de 2021 - 14:28 - Atualizado em 11 de novembro de 2021 - 14:30

Por Nayara Figueiredo

SÃO PAULO (Reuters) – O plantio de soja no ritmo mais acelerado da história do Brasil em 2021/22 está pressionando os prêmios nos portos para janeiro e especialmente fevereiro, com a expectativa de uma antecipação da colheita que deve acirrar a competição entre brasileiros e norte-americanos no início de 2022, segundo especialistas ouvidos pela Reuters.

Dados da consultoria Safras & Mercado mostram que os prêmios para embarque da oleaginosa com base no porto de Paranaguá (PR) estão em 130 centavos de dólar por bushel para janeiro e 50 centavos de dólares por bushel para fevereiro.

Um ano antes, quando a safra teve seu início atrasado pela falta de chuvas, ainda não havia referência de prêmio para janeiro e o de fevereiro estava em torno de 125 centavos de dólar por bushel, disse o analista da Safras Luiz Fernando Roque.

“Os prêmios para o início de 2022 estão bem em linha com um mercado que vai ter colheita em janeiro e que tem estoque de passagem. Ano passado foi um ano fora da curva, e os prêmios mais altos sinalizavam que os estoques eram muito baixos e haveria falta da colheita em janeiro”, explicou.

Ele disse ainda que os prêmios no Brasil em relação aos contratos futuros da bolsa de Chicago estão até mais competitivos que os da soja dos Estados Unidos para embarque em fevereiro.

Na mesma linha, o analista da consultoria IHS Markit Vitor Belasco afirmou que as chances do maior produtor e exportador global de soja ter volume disponível mais cedo são altas, pois além do plantio mais rápido do que no ano passado, houve incremento de área.

“Os próprios prêmios bastante estáveis para estes dois primeiros meses estão mostrando essa perspectiva do mercado”, disse ele.

O diretor da consultoria Céleres, Anderson Galvão, ressaltou que os compradores costumavam pagar mais aos produtores que conseguissem colher a oleaginosa primeiro, porém na safra 2021/22 serão muitos os agricultores que estarão colhendo já na primeira quinzena de janeiro. Isso justifica o recuo no valor dos prêmios em relação ao ciclo anterior.

O analista da Safras & Mercado disse ainda que a expectativa da entrada da colheita deve trazer não só os prêmios para patamares mais baixos como as cotações da soja também.

“A gente antecipa a sazonalidade da entrada de safra, que naturalmente sempre faz com que os prêmios e preços acabem sentindo”, afirmou.

“Com certeza os chineses já farão algumas compras da nossa soja em janeiro… e sabendo que grandes volumes estão por vir, uma safra recorde de mais de 140 milhões de toneladas, é possível que os preços caiam mais cedo também.”

BRASIL VS EUA

Segundo Roque, a antecipação dos embarques para o primeiro mês de 2022 também pode fazer com que o Brasil comece a “brigar” mais cedo com seu principal concorrente, os Estados Unidos, no comércio internacional de soja.

Os norte-americanos estão com a colheita em andamento atualmente e ainda estarão com alto fluxo comercial no início do ano que vem.

“Mas em relação a prêmio, hoje o valor americano no Golfo pra fevereiro fica entre 60 e 67 centavos de dólar por bushel, então os nossos estão melhores exatamente pela entrada da safra mais cedo”, disse o analista.

Galvão, da Céleres, chama ainda a atenção para a possibilidade de gargalos de transporte no Brasil, com a chegada da soja mais cedo.

“Pode trazer algum problema de logística porque janeiro ainda é mês chuvoso. Com clima assim, os portos param e podem gerar atraso nos embarques”, afirmou.

ALERTA CLIMÁTICO

Na safra passada, a chuva veio em excesso no período de colheita, postergando os trabalhos –fato que trouxe consequência para o milho segunda safra, que foi em grande parte semeado fora da janela ideal.

Para 2021/22, o meteorologista da Somar Celso Oliveira disse que ainda é cedo para cravar as previsões, mas os modelos climáticos indicam que é possível vir chuvas em grandes volumes no início do ano que vem, porém concentradas na região Sul.

“Pensando em Mato Grosso (primeiro Estado a colher soja no ano), eu não tenho tanta preocupação. A diferença desta safra é que o plantio foi muito precoce, então se vier precipitação em excesso, pode ser que, quando ela chegue, o milho e o algodão já estejam instalados e a soja colhida”, disse ele.

“Se a gente for olhar o que aconteceu neste ano, o Paraná estava de baixo d’água (na época da colheita) e as previsões para os próximos meses mostram essa possibilidade de novo.”

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